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1º Curso de linguística aplicada

“Eu não gosto dos brancos” X “Eu não gosto de branco”

Ou porque a linguística mora no meu coração Parte 1

O que é contexto?

Das brancas eu não gosto muito não…

Dia desses estava no escritório quando uma colega carinhosamente me ofereceu um singelo caramelo em um saquinho de balas de diversos sabores e cores. Era o final do pacote e só havia os caramelos de anis.

Polidamente respondi com a seguinte frase:

– Eu não gosto dos brancos.

Foi um choque! Quando poderia imaginar que eu seria traída pelo meu próprio veneno? Ah, a linguagem, o verbo…Fui pega! Eu tinha acabado de usar uma frase racista para descrever algo de meu desagrado! Eu, que me considerava um caso emblemático de tolerância e diversidade ideológica, tinha acabado de cair na maior contradição da minha vida e obedecendo a organização social racista,  disse que não gosto dos brancos. Seria o meu fim.

Mas espere um pouco, algo não está  escuro claro.

Analisando a frase:

“Eu não gosto dos brancos”

  • EU NÃO GOSTO  oração negativa  transitiva indireta com adjunto adverbial de negação
  • DOS contração do pronome DE + OS. O artigo OS faz referência a algo que  já foi dito no texto ou conhecido do contexto onde a frase foi dita. O OS é o artigo referencial pois remete a um conhecimento partilhado entre os participantes do ato de comunicação.
  • BRANCOS faz referência  ao que chamamos de cor branca.  BRANCOS,  substantivo-adjetivo no plural, reforça a ideia de quantidade que tinha no pacote e é objeto indireto

No caso eu me referia aos caramelos de anis que são de cor branca. Eu não gosto de anis e numa manobra linguística arriscada usei a metonímia me referindo a uma caraterística da bala para descrevê-la como um todo.  Eu não estava motivada pelo ódio da sociedade racializada simplesmente usando uma frase homônima do que poderia ser considerado racismo para descarregar meu ódio internalizado. Apenas escolhi as mesmas palavras dentro de um sistema de probabilidades linguisticas só que com outro significado. Isso porque uma frase só faz sentido dentro de um contexto.

E se fizermos uma  comparação? Qual a diferença entre dizer:  ‘não gosto dos brancos’ e ‘não gosto de brancos’?

Imagine que você está numa festa com muitas pessoas. Você está conversando sobre as pessoas da festa, daí você lança:

“Eu não gosto de brancos”

  • Eu não gosto: oração transitiva indireta com adjunto adverbial de negação
  • de: preposição possessiva,  particula de relação que atribui valor partitivo ao objeto indireto.
  • brancos: no possível contexto, refere-se ao indivíduo de cor ou ideologia branca (oi?) e sua relação e pertenencia a este grupo, reforçado pelo plural empregado.
Infelizmente, essa frase pode ser ser considerada preconceituosa pois se referindo às pessoas pela cor, você está supriminto a liberdade indidual dela, um dos carateres da conduta racista.  Ou seja, não importa quem é a pessoa, do que ela gosta, porque foi convidada para a festa. Simplesmente por ter um traço biológico infalível e determinante segundo o contexto,  estará para sempre condenada a ser apenas a representação de todo o grupo. Isso também é racismo. Ou, como veremos brevemente racialismo.

Por que o contexto é importante nos dois casos? Porque o uso das mesmas frases, as mesmas explicações sintáticas num contexto diferente,  mudaria o significado delas.

Este foi apenas um pensamento linguístico, não se assuste.

Pense nisso a próxima vez que ouvir uma frase como “a coisa tá preta”  e se sentir discriminado. Será que é mesmo com você?

:: Efigenias ::

Estudem para a próxima aula

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Filed under Ideias sem acento, Linguística, Opinião